O vírus influenza H5N1 poderá causar uma nova pandemia de gripe?

Há quase 15 anos, o mundo vivenciou uma pandemia de gripe, causada pelo vírus influenza A (H1N1). A comunidade científica, que realiza a vigilância genômica do vírus de maneira contínua, alerta que uma nova epidemia global não é uma questão de “se”, mas “quando”.

A gripe aviária, uma doença que afeta principalmente as aves, é causada por um vírus influenza da família Orthomyxoviridae. De acordo com seu subtipo, pode ser classificado como de alta ou baixa capacidade de provocar doença – conceito conhecido tecnicamente como patogenicidade. Assim, o vírus pode apresentar diferentes sintomas nas aves infectadas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Vírus da Influenza Aviária de Baixa Patogenicidade (LPAIV, em inglês) pode causar uma doença leve, muitas vezes despercebida ou sem sintomas. Já o Vírus da Influenza Aviária Altamente Patogênico (HPAIV) causado pelos subtipos (H5 e H7) do tipo A, causa doenças graves em aves e pode se espalhar rapidamente, resultando em altas taxas de mortalidade em diferentes espécies aviárias.

A forma mais comum de o vírus entrar em um território é através de aves selvagens migratórias. A maioria dos vírus influenza circulantes em aves não é capaz de infectar humanos. No entanto, algumas cepas com essa capacidade representam uma ameaça à saúde pública.

O principal fator de risco é a exposição direta ou indireta a animais infectados ou ambientes e superfícies contaminados. Depenar, manusear carcaças de aves infectadas e preparar aves para consumo, especialmente em ambientes domésticos, também podem ser fatores relacionados à transmissão.

Quando a gripe aviária é transmitida aos seres humanos, os sintomas podem variar de infecção leve, com febre e tosse, a pneumonia grave associada à dificuldade para respirar e risco de morte, dependendo de fatores relacionados ao vírus e ao hospedeiro. Raramente, sintomas gastrointestinais ou neurológicos foram relatados, segundo a OMS.

O que explica o aumento de surtos de H5N1

Entre 2003 e 2023, foram registrados 874 casos e 458 mortes por influenza H5N1 em 23 países, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, foram relatadas à OMS três infecções humanas com vírus influenza A (H5 – não especificado), 84 casos pela cepa H5N6 e sete registros de infecção com o vírus H5N8.

A cepa da gripe aviária foi detectada pela primeira vez nas Américas em aves em dezembro de 2014. No início do ano, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) emitiu um alerta em resposta à crescente detecção de surtos de gripe aviária em aves em dez países da região das Américas.

“O vírus está circulando mais. Diferente de você ter um caso ou outro detectado em aves, agora estamos vendo em vários lugares. Isso mostra que, de fato, ele está espalhando não só em aves, tanto domésticas quanto selvagens, mas em mamíferos e de lugares muito diferentes”, afirma o pesquisador José Eduardo Levi, da Universidade de São Paulo (USP).

A Opas enfatizou a importância do controle da infecção em aves como a principal medida para reduzir o risco para humanos e recomendou que os países reforcem a vigilância da gripe sazonal e zoonótica nas populações animais e humanas.

No final de março, o Chile registrou o primeiro caso em humano da infecção pelo vírus influenza A (H5N1). O caso, um paciente de 53 anos, foi a primeira infecção humana pelo vírus no país e o terceiro relatada na região das Américas até o momento. O vírus não foi detectado em humanos no Brasil.

A presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) e professora da Universidade de São Paulo (USP), Helena Lage Ferreira, explica que o aumento da circulação do vírus está associado a mudanças genéticas do vírus.

Durante a infecção, o sistema imunológico é afetado por duas proteínas presentes na superfície do vírus Influenza A, chamadas hemaglutinina e neuraminidase. Essas proteínas, essenciais para a capacidade de infecção do influenza, compõem as iniciais H e N que estabelecem o nome de cada variedade genética do vírus.

Existem pelo menos 18 subtipos de hemaglutininas e 11 subtipos de neuraminidases descritos para o vírus influenza A. O vírus A (H5N1), por exemplo, contém hemaglutinina subtipo 5 e neuraminidase subtipo 1.

“O vírus H5N1 de alta patogenicidade emergiu na Ásia em 1996 e foi evoluindo durante todos estes anos. Em 2021, a hemaglutinina H5 rearranjou com um novo N1 de aves silvestres e um novo vírus emergiu. E rapidamente este novo vírus tornou-se predominante pela Ásia, África, Europa e Oriente Médio até o final do ano de 2021. O vírus foi introduzido no final de 2021 pelas aves silvestres no Canadá e Estados Unidos. Durante 2022, se disseminou pela América do Norte e, em outubro de 2022, o vírus foi encontrado na América do Sul também”, explica Helena.

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